Era uma consulta de rotina . Menina de 10 anos , sem nenhuma queixa , trazida pela mãe . Mas uma coisa chamava muito a atenção : apesar do calor , a adolescente estava de blusa manga longa .

Brinquei com ela sobre a blusa e a mãe disse que a menina era sempre assim, “friorenta” . Tímida , como toda criança ao exame físico , notei algumas marcas estranhas em seu braço e pedi para retirar a blusa .

Eram várias marcas , horizontais , bem definidas , cortes nos dois braços , milimetricamente iguais , no total de 8 lesões.

Ao indagar à criança , ela disse que havia se machucado ao cair . A mãe não demonstrou muito interesse , o que era notadamente mais estranho ainda …

Era uma caso de cutting , já ouviu falar?

O cutting é um distúrbio emocional que se caracteriza por atitudes de automutilação provocando, de forma consciente, feridas no próprio corpo. Ao provocar dor física, o adolescente experimenta um alívio de seus sentimentos negativos com uma sensação de prazer. Desta forma a automutilação pode ser vista como uma forma de punição, onde o adolescente direciona para si mesmo a raiva que sente.

No Brasil não há estatísticas , mas estudos no mundo mostram que cerca de 20% das crianças e adolescentes terão algum comportamento de autolesão não suicida, concentrado principalmente dos 14 aos 17 anos, porém há casos descritos antes deste período.

Quadros psiquiátricos são frequentemente associados ao cutting e este por sua vez tem predominância maior no sexo feminino: cerca de 20% dos adolescentes deprimidos e 15% dos ansiosos se cortam.

O fato de o adolescente se autoferir de forma consciente permite exercer nas pessoas de seu convívio social algum poder, como forma de chamar atenção para seu sofrimento.

Os automutiladores tem baixa autoestima, são retraídos, mesmo que algumas vezes mostram-se alegres, e mantém certo distanciamento dos relacionamentos sociais.

Um estudo da Universidade de Oxford revelou que os adolescentes que se cortam tem 3 vezes mais probabilidade de morrer precocemente e apresentam um risco maior de suicídio.

Geralmente o adolescente se corta sozinho, em 80% dos casos, principalmente em casa e no quarto ou banheiro. Os amigos sabem mais dos seus cortes que a própria família e muitas vezes se cortam juntos, seja por comportamento aprendido, uma espécie de coleguismo, repetindo o ato, ou em outras vezes para mostrar algum tipo de resposta nas redes sociais, postando os cortes em blogs, vídeos, comunidades.

A superfície corporal mais usada é o antebraço, em cerca de 70% dos casos, sabe-se que quanto maior a frequência e a profundidade, maior o risco.

O que fazer ?

Ao descobrir que uma criança está se cortando, o primeiro passo é manter a calma. É preciso ter uma atitude acolhedora e tentar entender de onde parte o comportamento. Gritar ou ter uma atitude agressiva não vai ajudar , mas piorar o problema.

Algumas hipóteses tentam explicar o fenômeno, como por exemplo, a de estar no controle de sua própria dor. Outra ideia é de que a intenção de quem se fere é de se punir por algo que fez.

É muito importante que a escola e a família estejam atentas aos adolescentes que venham praticar o cutting. Caso a escola seja a primeira a perceber, deve comunicar os pais e não simplesmente achar que é um fenômeno passageiro ou da moda.

Ao tomar consciência da situação do filho, os pais devem procurar ajuda profissional. Geralmente uma ajuda psiquiátrica é necessária, aliada a psicoterapia.

Converse com o seu filho e fique alerta !

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Escrito por Dra Fernanda Naka

Pediatra

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